Estequiometria

A Química é, muitas vezes, dividida em Química Analítica Qualitativa e Química Analítica Quantitativa. Enquanto a primeira se preocupa com a verificação da presença ou ausência de certa substância, a segunda, que vamos estudar, se preocupa em saber quanto de reagente há, quanto produto foi formado, qual o rendimento dessa reação. 

Balanceamento

Apesar de ser um dos conceitos iniciais para compreender a estequiometria, vamos revisar, pois será a base para todo o nosso estudo.

Tendo como base a lei de conservação das massas, formulada por Lavoisier, temos que tudo se transforma. Certo, reagentes se transformam em produtos, já sabemos, mas o que isso tem a ver? Se pensarmos nas substâncias, e não apenas nos reagentes em geral, veremos que tudo que está de um lado tem que estar do outro. Esse é o conceito de equilíbrio. E o que é o balanceamento se não o equilíbrio da equação?

Para a reação do iodeto de sódio com o nitrato de chumbo II, com a formação de nitrato de sódio e iodeto de chumbo II, temos:

NaI + Pb(NO3)2 ---> NaNO3 + PbI2

A reação necessita de um ajuste. Pensando em átomos, do lado esquerdo temos 1 átomo de Na, 1 átomo de I, 1 átomo de Pb, 2 átomos de N e 6 seis átomos de O.

No lado direito temos 1 átomo de Na, 1 átomo de N, 3 átomos de O, 1 átomo de Pb e dois átomos de I. Para deixar mais organizado:

Lado direito: 1 x Na, 1 x I, 1 x Pb, 2 x N, 6 x O

Lado esquerdo: 1 Na, 2 x I, 1 x Pb, 1 x N, 3 x O

Repare no índice inferior do nitrato de chumbo II. Ele indica que, para aquele composto, esse grupo aparece duas vezes. Portanto, NÃO PODEMOS MUDAR OS ÍNDICES INFERIORES PARA BALANCEAR A EQUAÇÃO. O que fazer, então?

Multiplicar. Começamos pelos metais, Na e Pb. Para Na está certo e para Pb também.

Lado direito: 1 x Na, 1 x I, 1 x Pb, 2 x N, 6 x O

Lado esquerdo: 1 Na, 2 x I, 1 x Pb, 1 x N, 3 x O

Próximo passo: ametais. I, N e O. Esses caras vão dar um trabalho. Vamos lá!

Lado direito: 1 x I, 2 x N, 6 x O

Lado esquerdo: 2 x I, 1 x N, 3 x O

Nenhum deles está correto. O lado esquerdo possui mais iodo do que o lado direito, que possui mais oxigênio e nitrogênio do que o do lado esquerdo. Vamos começar pelo iodo.

2 NaI + Pb(NO3)2 ---> NaNO3 + PbI2

Ótimo, bagunçamos os metais! Deixa quieto que eles se ajeitam. Para o nitrogênio:

2 NaI + Pb(NO3)2 ---> 2 NaNO3 + PbI2

Viu só? Eles se arrumaram. Até o oxigênio já está balanceado! Nossa reação corretamente balanceada ficou:

2 NaI + Pb(NO3)2 ---> 2 NaNO3 + PbI2

Note que:

Lado direito: 2 x Na, 2 x I, 1 x Pb, 2 x N, 6 x O

Lado esquerdo: 2 x Na, 2 x I, 1 x Pb, 1 x N, 6 x O

Parece difícil. Mas com a prática, isso se torna automático. Um macete que é de grande ajuda é usar a "regra do MACHO".

Metais, Ametais, Carbono, Hidrogênio, Oxigênio.

Essa deve ser a ordem de balanceamento.

Dá uma olhada na reação que usamos de exemplo:

Relações estequiométricas fundamentais

O coeficiente estequiométrico é um conceito muito conhecido, e será muito usado durante todo o estudo da Química. Sabe aquela multiplicação que fizemos no balanceamento? Aqueles números são os coeficientes.

2 NaI + Pb(NO3)2 ---> 2 NaNO3 + PbI2

Nesse exemplo, os coeficientes são 2, 1, 2 e 1.

Saiba mais: de onde vêm o nome estequiometria?

CUIDE SE A QUESTÃO PEDIR A SOMA DOS COEFICIENTES! Apesar de não estar escrito, na frente do nitrato de chumbo II e do iodeto de chumbo, o coeficiente é 1.

A estequiometria é muito útil para estabelecer proporções. É através dela que sabemos quanto por de cada reagente para que uma reação aconteça sem o desperdício (uma reação com pouco rendimento) de reagentes.

É como um bolo. Na receita, temos 2 xícaras de farinha para cada xícara de leite. Se quisermos uma receita maior, usaremos 4 xícaras de farinha para 2 xícaras de leite, estabelecendo uma proporção.

Em qual unidade essa proporção é estabelecida? Depende.

No nosso caso, vamos estabelecer a proporção dos coeficientes entre:

  • Moléculas

Isso é o que fizemos antes, no exemplo do balanceamento. Assim, temos que 2 moléculas de iodeto de sódio reagem com 1 molécula de nitrato de chumbo II formando 2 moléculas de nitrato de sódio e 1 molécula de iodeto de chumbo II.

Cuidado: os coeficientes não precisam necessariamente indicar quantos moléculas tomam parte na reação, mas também indicam a proporção entre os números de moléculas que tomam parte na reação.

  • Quantidades em mol

As moléculas estão presente em milhares e milhões nas amostras. Assim, para trabalhar do ponto de vista macroscópico, é necessário recorrer ao mol. Assim, o coeficiente, ao invés de indicar a proporção entre as moléculas, indica a proporção em mol. Para a reação teremos 2 mol de iodeto de sódio reagem com 1 mol de nitrato de chumbo II formando 2 mol de nitrato de sódio e 1 mol de iodeto de chumbo II.

ESTABELECENDO RELAÇÕES

1 mol = 6 x 10^23 moléculas

Agora que convertemos o número de moléculas para mol, podemos começar a falar em massa. Os coeficientes são considerados como a indicação da proporção em mol. E mol pode ser convertido em gramas. Lembra da massa molar? É hora de lembrar dela. Com base na equação:

2 NaI + Pb(NO3)2 ---> 2 NaNO3 + PbI2

Vamos determinar quantos gramas de iodeto de sódio reagem com quantos gramas de nitrato de chumbo II.

O primeiro passo é: massa molar

NaI = 150 g/mol

Pb(NO3)2 = 331 g/mol

NaNO3 = 85 g/mol

PbI2 = 461 g/mol

O segundo passo é observar o coeficiente estequiométrico para saber com quantos mol estaremos lidando.

NaI = 150 g/mol x 2 mol = 300 g

Pb(NO3)2 = 331 g/mol x 1 mol = 331 g

NaNO3 = 85 g/mol x 2 mol = 170 g

PbI2 = 461 g/mol x 1 mol = 461 g

Assim, temos que 300 g de iodeto de sódio reagem com 331 g de nitrato de chumbo II formando 170 g de nitrato de sódio e 461g de iodeto de chumbo. Repare que a soma da massa do lado dos reagentes é a mesma soma da massa dos produtos, 631 g.

ESTABELECENDO RELAÇÕES

1 mol = massa molar da substância

Relação entre quantidades em mol, massa, moléculas e átomos

1 mol = 6 x 10^23 moléculas

1 mol = 6 x 10^23 átomos

1 mol = massa molar da substância

Relações estequiométricas com volume de gás

Agora que já conhecemos as relações estequiométricas fundamentais, podemos aprofundar nosso estudo, partindo para o volume e gases.

Uma lei fundamental para se trabalhar com gases é a Lei de Gay-Lussac. Essa lei enuncia que os volumes de substâncias gasosas, nas mesmas condições de temperatura e pressão, se mantêm em uma proporção fixa, expressa por números inteiros e pequenos.

Saiba mais: por que a Lei de Gay-Lussac não é aplicada para líquidos?

Saiba mais: experimento de Gay-Lussac

Certo, mas como vamos usar isso? Na época, não era possível explicar essa lei do jeito que é explicada atualmente - o conceito de mol nem tinha sido inventado. Depois de muita observação, foi percebido que os números de proporção entre volumes e os coeficientes eram os mesmos.

Atualmente, a lei é interpretada a partir da equação dos gases ideais, que verificou uma proporcionalidade direta entre a proporção do volume dos gases (com pressão e temperatura constante) e a proporção, em mol, na quantidade desses participantes.

Assim, estabelecemos a relação entre mol e volume: é o que chamamos de volume molar dos gases (mol/L).

Relação entre quantidades em mol, massa, moléculas, átomos e volume

1 mol = 6 x 10^23 moléculas

1 mol = 6 x 10^23 átomos

1 mol = massa molar da substância

1 mol = 22,4 L na CNTP (0°C e 1 atm)

1 mol = 24,5 L (25°C e 1 atm)

Saiba mais: Dalton x Gay-Lussac

Reagente limitante e reagente em excesso

Nem sempre os reagentes estão nas proporções necessárias para que ambos sejam totalmente consumidos. Assim, pode ser que um dos reagentes pode estar sobrando.

Reagente limitante é o reagente consumido totalmente em uma reação. Quando ele termina de ser consumido, a reação acaba. Já o reagente em excesso é o reagente que tem quantidade superior à necessária para reagir com o reagente limitante.

Como identificar qual é qual? Há duas maneiras, verificando as proporções em mol ou em massa. Usaremos a síntese da amônia como exemplo (com a equação balanceada).

N2 + 3 H2 ---> 2 NH3

Em mol:

A proporção é de 1 para 3. Assim, se tivermos, por exemplo, 1 mol de nitrogênio e 4 mol de hidrogênio, teremos 1 mol de hidrogênio em excesso, pois a proporção é 1 para 3, não 3 para 4. Da mesma forma que o hidrogênio é o reagente em excesso, o nitrogênio é o reagente limitante. Mas o jogo pode virar: se tivermos 2 mol de nitrogênio e 3 mol de hidrogênio, o nitrogênio passa a ser o reagente em excesso e o hidrogênio se torna o reagente limitante.

Analise a seguinte situação:

3 N2 + 9 H2 ---> 6 NH3

Quem é o reagente limitante e quem é o reagente em excesso? Ninguém. Quer ver por quê? Se, nessa reação, obtivemos a proporção de 3 para 9, por que não há um reagente limitante e outro em excesso? Veja bem: a proporção é 1 para 3. Pegue essa proporção de 3 para 9. Divida por três. O que sobra? 1 para 3.

Em massa:

Conhecemos o conceito de massa molar. Assim, podemos trabalhar com o grama - a unidade macroscópica que usamos para a massa.

Voltando à amônia:

N2 + 3 H2 ---> 2 NH3

A proporção é de 1 para 3. A massa molar do N2 é 28 g. Como temos apenas um mol, 28 g x 1 mol = 28 g. A massa molar do H2 é 2g. Como temos 3 mol, 2 g x 3 mol = 6 g. Logo, para cada 28 g de N2 que colocarmos, será necessário 6 g de H2.

Então, se tivermos 30 g de N2 e 6 g de H2, o nitrogênio estará em com um excesso de 2 g. Da mesma forma, se tivermos 28 g de N2 e 10 g de H2, teremos um excesso de 4 g de hidrogênio.

Cuidado: nas provas, é bem comum aparecer algo como 56 g para cada 12 g. Se dividirmos por dois, chegaremos à proporção das massas, 28 : 6, e, portanto, não haverá reagente em excesso ou reagente limitante.

FIQUE ATENTO: NEM SEMPRE O REAGENTE LIMITANTE É O NÚMERO "MAIS BAIXO" (EM MASSA OU MOL).


Reagentes com impurezas

O que seriam as impurezas de um reagente? Como ele afeta a reação?

As impurezas podem ser sujeiras, substâncias tóxicas ou qualquer outra substância que não seja do nosso interesse de estudo. Para nós, usaremos a última definição.

Vamos supor que uma soda cáustica comercia (NaOH), tenha 70% de pureza. O que isso quer dizer? Considerando uma amostra de 100 g, quantos gramas há de NaOH nessa soda?

Temos a quantidade total de massa e o que queremos.

100 g -------------------------- 100% da amostra

X g -------------------------- 70% NaOH

X= 70 g

Assim, temos que para cada 100 g dessa soda, 70 g são NaOH.

Saiba mais: impurezas

Rendimento

A teoria sempre é maravilhosa. Todas as equações trabalhadas até agora apresentavam um rendimento de 100%. Isso quer dizer que a reação ocorreu até que um reagente (ou ambos, no caso do balanceamento estequiométrico) seja totalmente consumido.

Mas a realidade não é assim. Por fatores abordados pela Físico-Química, as reações não ocorrem com 100% de rendimento.

Se uma reação teve um rendimento de 80%, isso significa que a quantidade final obtida foi 80% da quantidade esperada. Para isso, é necessário um padrão.

Nosso padrão, nesse caso, será a reação:

N2 + 3 H2 ---> 2 NH3

Considerando um rendimento de 75%, qual será a massa de nitrogênio e hidrogênio após a formação de 136 g de NH3?

  • Primeiro passo: estabelecer o padrão.

Vamos, primeiro, trabalhar com o número em mol. 1, 3 e 2. Ou, em suas massas molares, 28 g, 6 g e 34g. Esses valores serão o nosso 100% de rendimento.

  • Segundo passo: considerar o rendimento.

Se, em condições normais, teríamos 34 g, que correspondem a 2 mol. Assim, se tivermos 75% de 2 mol, 0,75 x 2 = 1,5 mol de NH3 = 25,5 g.

  • Terceiro passo: calcular a massa do primeiro reagente.

Lembra da proporção? Hora de pôr em prática. Temos, então:

28 g de N2 ------------------25,5 g de NH3

X g de N2 -------------------136 g de NH3

X = 149,333 g de N2

  • Quarto passo: calcular a massa do segundo reagente.

6 g de H2 ----------------- 25,5 g de NH3

X g de H2 -----------------136 g de NH3

x = 32 g

Isso significa que, para formar 136 g de NH3 com um rendimento de 75%, são necessários 149, 3 g de N2 e 32 g de H2.


Foi isso, gente! Não é tão ruim assim, é?

Texto por: Giovana Bagnara Luisi
Estudante de Química



Referência:

(TITO), Francisco Miragaia Peruzzo; CANTO, Eduardo Leite do. Química: na abordagem do cotidiano. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2007. 760 p.

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