Cloreto de lítio como sal de cozinha?
Mais ou menos. Mas não é de se duvidar que eles fossem confundidos. Afinal, ambos são pós brancos, pertencentes à mesma família da tabela periódica.
Antes de falar sobre como os compostos de lítio chegaram a nossa mesa, vamos ver as primeiras aplicações dos compostos desse elemento - a variedade é surpreendente.
Primeiramente, o urato de lítio foi empregado no tratamento da gota e do reumatismo, em 1859. A lógica seria devido à solubilidade do desse sal no ácido úrico. Posteriormente, ele foi detectado em águas de fontes hidrominerais da Europa, ganhando muito crédito por parte das pessoas pela eficácia dos tratamentos nessas fontes.
O uso clínico começou mais tarde, por volta de 1873, mas não de uma forma sistemática. Alguns compostos empregados eram o brometo de lítio e o cloreto de lítio. A partir de observações, a conclusão alcançada pelos médicos foi de que, em doses acima da faixa de 4 a 8 gramas por dia (altíssima, já que, para fins médicos, no caso do carbonato de lítio, o recomendado é de, no máximo 1 a 2 gramas, conforme peso, idade, sexo e outros fatores) de cloreto de lítio, os pacientes podiam apresentar fraqueza muscular e distúrbios mentais (como veremos a seguir, a dose certa é o tratamento de alguns desses distúrbios, enquanto doses elevadas podem provocar esses distúrbios. Loucura, não?)
O cloreto de sódio, nosso sal de cozinha, sempre foi um grande vilão na alimentação. Mas o sal é essencial para nós (em uma dose moderada, que excedemos quase todos os dias). Desde a década de 30, já era conhecido que pessoas hipertensas e com doenças cardíacas deveriam "cortar" o consumo de sal. Mas e aí? Comer uma comida sem gosto e sem graça? Não.
Uma alternativa foi começar a usar o cloreto de lítio ao invés do cloreto de sódio. Por quê não? Sódio e lítio são da mesma família, elementos da mesma família têm propriedades semelhantes e, como já foi dito, ambos são pós brancos. Para usar o cloreto de lítio não bastava, simplesmente, pegar o saleiro e espalhar na comida. Na culinária, ele devia ser misturado com ácido cítrico e iodeto de potássio (que, aliás, continua sendo adicionado ao nosso sal iodado até hoje). Aprovado em testes, o cloreto de lítio passou a ser consumido.
Até que alguns efeitos colaterais começaram a aparecer, cortando todo o barato dessa novidade para os hipertensos e pessoas com problemas cardíacos. Muitas pessoas apresentaram intoxicação e reações adversas graves, convulsões e, inclusive, morte.
Em 1949, estava decidido: sem mais cloreto de lítio liberado, agora seu uso será psiquiátrico. Foi descoberto que o carbonato de lítio era o composto mais importante para o tratamento de doenças. Seu uso, contudo, foi aprovado em 1975, sendo eficiente para tratar a depressão e transtorno bipolar, podendo estar associado com outros remédios.
Ninguém sabe, exatamente, como o lítio agem no organismo. Um dos possíveis mecanismos de ação seriam controlados por enzimas. Algumas pesquisas indicam que o lítio pode interferir em processos dos quais o magnésio é um participante. Por isso, o tratamento com esse remédio deve ser controlado e monitorado por especialistas. De vez em quando, é bom fazer um exame de litemia - para determinar a quantidade de lítio no sangue.
A pesquisa científica ainda precisa avançar até que saibamos como o íon do elemento 3 da tabela periódica, o metal mais leve, atua no tratamento desses distúrbios - criando, quem sabe, fármacos com a mesma eficiência do carbonato de lítio.
Texto por: Giovana Bagnara Luisi
Estudante de Química
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Sugestão de leitura: Lítio e neuroproteção
Artigo da Revista Ser Médico, disponível no site do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), contendo tópicos mais detalhados sobre o assinto.
Sugestão de leitura: Nefrotoxicidade por lítio
Artigo que trás, mais detalhadamente, a história do lítio, bem como a relação entre a nefrotoxicidade e o que ela pode causar.
